sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Entre o Moderno e o Arcaico

 Pretendo analisar o confronto existente  entre modernidade e o sertão arcaico, na obra Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa e buscar estabelecer um elo com publicações recentes que falam a respeito do que acontece hoje no sertão, especialmente o livro Galiléia do cearense Ronaldo Correia de Brito. O livro Galiléia fala a respeito de um sertão atual, moderno, mas que ainda perpetua situações e  questões arcaicas e o que é ainda grave, um sertão que permanece parado no tempo e no espaço, onde velhos problemas de ontem se arrastam atuais, a exemplo do ciclo das secas, a questão da terra e a existência de um patriarcado, sem contar dos problemas da modernidade como as drogas e a prostituição, principalmente a infantil. Esses acontecimentos despertam a sensação incomoda de que alguns problemas antigos permanecem vivos e que surgiram outros tão relevantes que merecem a atenção de todos, tudo isso nos levando a crer que os sertanejos continuam marginalizados, apesar dos inúmeros avanços percebidos em alguns setores.
Enquanto o Brasil modernizava-se e industrializava-se, nos anos do chamado “desenvolvimento”, o romance Grande Sertão: Veredas, sem abrir mão de uma linguagem revolucionariamente moderna, mergulhou fundo tanto nas experiências concretas quanto no imaginário dos homens rústicos de uma região até pouco representada em nossa literatura.
Rosa publicou Grande Sertão: Veredas no ano de 1956 e não pode, obviamente, prever os relevantes acontecimentos das décadas de 60 a 80, os quais foram, de certa forma, determinantes para os escritos dos autores moderno, a exemplo de Correia de Brito e seu livro Galiléia. Muitas ideias modernas são percebidas na leitura do Grande Sertão: Veredas de Rosa, com seus personagens tão ricos e complexos, a exemplo de Riobaldo e Diadorim, podemos, de alguma maneira, imaginar qual foi a possível intenção do autor de criá-los através dessa epopéia incrível e fascinante.
Em um mundo arcaico, impregnado de preconceito e discriminação, pensamos que Rosa busca falar de temas tabus para época como o homossexualismo e a condição das mulheres em um mundo patriarcalmente dominado pelos homens. O romance de tensão transfigurado em que o autor procura construir uma obra realista, de caráter universal, sem esquecer, porém, os problemas do homem da região em uma linguagem original.

...Escondido enrolei minha sacola, aí tanto, mesmo em fé de promessa, tive vergonha de estar esmolando. Mas ele apreciava o trabalho dos homens, chamado para eles meu olhar, com um jeito de siso. Senti, modo meu de menino, que ele também se simpatizava a já comigo. A ser que tinha dinheiro de seu, comprou um quarto de queijo, e um pedaço de rapadura. Disse que ia passear em canoa. Não pediu licença ao tio dele. Me perguntou se eu vinha. Tudo fazia com um realce de simplicidade, tanto desmendindo pressa, que a gente só podia responder que sim. Ele me deu a mão, para me ajudar a descer o barranco.”
GUIMARÃES ROSA, JOÃO, 2006,1.ed. – Rio de Janeiro – NOVA FRONTEIRA, pg. 103.
A respeito do trecho acima, observa-se uma das faces de Diadorim, que desde menina, apresentava característica de mulher que já sabia o que queria, a sua emancipação em um mundo arcaico, predominantemente dominado pelos homens.
Os outros cinco filhos de Raimundo Caetano, quatro mulheres e um homem, debandaram em busca de horizontes mais largos, supondo ficar a salvo do controle tirânico do pai. Três filhas não foram alem da capital, Fortaleza. Enquanto tinha saúde, Raimundo fazia visitas regulares a elas, sob pretexto de consultas médicas. Na verdade, vigiava as pobres mulher: uma viúva cujo marido enforcou-se após um fracasso financeiro; uma divorciada que fora capaz de administrar as traições do esposo; e a solteirona que nunca conseguira desfazer da paixão pelo pai, nem compor outra imagem de homem no seu fechado coração de Electra. Minha mãe escapou dessa rede pegajosa, casou-se e foi morar no Recife, distante de Arneirós e dos parentes.”
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 55,  - Editora Objetiva – 2008.
No trecho lido percebemos como ainda as mulheres sertanejas, permanecem, de alguma forma ainda presas às questões do patriarcado, mesmo que tenham uma certa liberdade de escolha, elas continuam levando consigo muitos dos costumes anteriores.
Correia de Brito detona o mundo arcaico do sertão com seus personagens vindos de um mundo laico, globalizado. O tema de Galiléia é o encontro de três gerações de uma família. Seus integrantes convergem para o sertão de Inhamuns para comemorar o aniversário do patriarca moribundo. As velas do bolo, no entanto, viram as de seu próprio funeral e seus descentes acabam topando com um cadáver ambulante, em decomposição, enquanto se revela a podridão moral da família.
Quando restaram na casa apenas Raimundo Caetano, a avó Raquel, Tereza Araújo e os dois rapazes Esaú e Jacó, ela entrou em decadência, ameaçando ruir sobre os donos. Os filhos, netos, bisnetos, parentes e agregados retornavam apenas nas festas do padroeiro, aniversários e férias. Os avós já não sobreviviam do plantio e dos rebanhos. O principal sustento vinha de um fabrico de redes artesanais, empregando mulheres na manufatura de punhos, cordões, varandas de crochê e bordados. Os quartos de dormir, as salas de estar e os terraços da sala foram ocupados por máquinas de costura e fiação. As mulheres romperam as prisões simbólicas, saíram para o mundo, quebraram as paredes do gineceu e as portas que as isolavam no claustro sóbrio. Os tempos eram outros, homens e mulheres se ocupavam dos mesmos afazeres, invertia-se a antiga ordem patriarcal.”
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 60,  - Editora Objetiva – 2008.

Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas e só essas poucas veredas”
GUIMARAES ROSA, JOÃO, 2006, pg 100.
Tomando como uma chave interpretativa de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, essa frase nos levaria a reconhecer que as experiências vividas por Riobaldo foram cruciais, permitindo mesmo que ele viesse a transcendê-las nelas representando suas mais fundas questões.
Em Galilía, percebermos que o personagem do trecho a seguir, caracteriza esse sertanejo que leva o sertão por onde ele vai, não consegue deixar o sertão, pois o sertão é parte integrante do seu mais profundo ser, mesmo que ele não consiga entender, mesmo assim,  o sertão permanecera dentro dele pelo tempo ou lugar que o sertanejo andar.
- A Noruega é bonita? – É muito. Aqui também é. Mas ninguém procura lugares porque são bonitos ou feios. As pessoas saem atrás da sobrevivência. Muita gente deixou a Noruega, anos atrás, por conta da crise econômica. Iam para os Estados Unidos. Quando e economia do país melhorou, ninguém mais saiu de lá. O problema agora são os imigrantes, os que querem entrar no país. Quando os Inhamuns eram uma terra rica, cheia de pasto, não parava de chegar gente. Hoje, só fazem ir embora. - É verdade. – A Noruega é um sertão a menos trinta graus. As pessoas lá também são silenciosas, hospitaleiras e falam manso. Habituaram-se aos desertos de gelo, como nós à caatinga. A comparação parece sem sentido, mas eles também olham as extensões geladas, como olhamos as pedras. A nossa pele marcada pelo sol extremo, a deles pelo frio. Acho que as pessoas são as mesmas, em qualquer latitude.”
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 73,  - Editora Objetiva – 2008.
Em entrevista ao jornalista Arnaldo Jabor a respeito da adaptação de uns contos de Rosa para o cinema, o cineasta Nelson Pereira dos Santos declarou: “O sertão do Rosa é meio metafísico, com o Nada rolando entre os sertanejos. A terceira margem é o que todo mundo procura e não sabe o que é... Não sei o que é... Aliás, eu quero criar esta indagação no espectador... evito qualquer resposta fechada... quero criar vazios na alma das pessoas... Quero mostrar talvez (...) que existe uma terceira margem para o Brasil. Neste país convivem o antigo e o moderno. Quero mostrar que existe uma terceira margem para o país, entre o arcaico e o atual.
(Folha de São Paulo, “Ilustrada”, Pg 1, 03/03/1993)
Partindo desse pressuposto, podemos destacar que esta entrevista nos aponta algo significativo em relação a obra de Rosa, pois mesmo se tratando de um dos contos do autor, do livro “Primeiras Estórias”, percebe-se claramente a identificação com as outras obras do autor, a exemplo da obras Grande Sertão: Veredas, os quais podemos tranquilamente na citada entrevista. A questão entre arcaico e moderno está empregnada na obra de Guimarães Rosa, pois nos seus textos, ele sempre deixa algo em suspense, criando uma opção para divagarmos, ou seja, deixa a entender que a sua obra permanecera em aberto, é atemporal, tanto na escrita como nas estórias, afinal, assim como o próprio Rosa mesmo informa em Grande Sertão: Veredas. “O sertão é em toda parte”.
Tudo consabia bem, isto sim, digo; no remedido do trivial, espaço de chuva, a gente em avanço por esses tabuleiros: fazia rio, por debaixo, entre as pernas de meu cavalo. Sertão velho de idades. Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta.”
GUIMARÃES ROSA, JOÃO, 2006,1.ed. – Rio de Janeiro – NOVA FRONTEIRA, pg. 542.
É estranho como o sol desaparece no sertão. Mal nos preparamos para a noite. Voam pássaros que desconheço, raposas atravessam a estrada, besouros batem no pára-brisa do carro. Não identifico nenhum pio de ave, acima da musica. Meu pavor aumenta. Para onde vamos? O primo Ismael nos conduz. Sinto a garganta queimar, o corpo quente de febre. É uma obsessão.”
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 11,  - Editora Objetiva – 2008.
É preciso muito tempo pra se gostar de um lugar. Eu nunca me acostumei com à Noruega. Dizem que ela é melhor do que isso aqui. Eu não acho. O sertão a gente traz nos olhos, no sangue, nos cromossomos. É uma doença sem cura.”
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 19,  - Editora Objetiva – 2008.
Ambos os trechos posteriores falam a respeito do sertão e de como o sertanejo possui a identidade atrelada a ele, mesmo que esteja longe, o sertão o persegue. Tanto nas andanças de Riobaldo pelo sertão como os caminhos percorridos no mundo pelo personagem de Galiléia,  existem traços concretos de semelhança na visão de que o sertão esta dentro do sertanejo, ou seja, está em toda a parte por onde ele andar por esse mundo a fora.
Por ter nascido no universo deste sertão, Correira de Brito, nascido precisamente no sertão de Inhamuns, que é quase um deserto no Crato, vive hoje no Recife, diz que nunca olhou o deserto de luma forma romântica do agreste. Ronaldo lembra que quando faltava água, ele e os irmãos lavavam o tumulo dos ancestrais na esperança de chover. Ao escrever Galiléia tratou de fazer um acerto de contas com este mundo arcaico, então ele avança em uma vereda aberta por Guimarães Rosa, a respeito das relações homoeróticas entre personagens embrutecidos que parem ter saído de alguma tragédia grega. Em outras palavras: ele fala de um mundo em ruínas, que desmorona com seus brasões e hoje vê suas crianças prostituídas por caminhoneiros de passagem pelo inferno.
Nesta entrevista Ronaldo Correia de Brito declarou a respeito do sertão:
O sertão tanto pode significar um espaço mítico como um acidente geográfico. Santo Agostinho perguntava sobre o tempo: o que é o tempo? Se não me perguntam eu sei, se me perguntam, desconheço. O sertão é abstrato ou real como o tempo. E continuará tema para a literatura. O sertão é um espaço de memória confundido como o urbano. É o melhor lugar do mundo para acessar a Internet, porque as Lan House cobram apenas cinqüenta centavos por hora. Galiléia trata dessas idas, mergulhos e retornos nesse mundo suburbano chamado sertão.”
Para a  critica Walnice Nogueira Galvão, é possível depreender da obra de Guimarães Rosa uma imagem de Brasil em que existe uma oligarquia, que por sua própria natureza é minúscula, comandado, dominando, explorando uma plebe enorme.
Para o professor da USP, Willi Bolle, Grande Sertão: Veredas é um romance de formação da alma de um individuo e um retrato do país. A travessia do sertão é um navegar dentro do desconhecido, tentativa de decifrar a própria vida:  o amor, o medo, a coragem. Por meio da posição social ambígua do protagonista – filho de uma pobre sertaneja e de um latifundiário – e de seu perfil de “jagunço letrado”, o romancista retrata uma nação dilacerada, completando os principais ensaios de interpretação do Brasil: desde o livro matricial de Euclides da Cunha até os estudos de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado.
Para o século XX , Grande Sertão: Veredas é um grande acontecimento, que, por caminhos e com recursos muito diferentes, nos deixa em estado de encantamento e suspeição. Ele nos põem, como comunidade de leitor, diante dos nossos preconceitos, das limitações da nossa capacidade de julgar, da precariedade dos juízos críticos, etc.
Grande Sertão: Veredas, além de sua beleza poética impressionante, este romance trabalha a estranheza do que há de mais familiar na cultura brasileira: a melancolia e a sensualidade, o instável equilíbrio emotivo que sempre oscila entre extremos de violência e de ternura, os curtos-circuitos do desenvolvimento que reproduz os mesmos velhos males... Rosa transformou os heróis míticos brasileiros (o gaúcho, o sertanejo, etc.) em seres humanos como todos nós.”
(Kathain Rosenfied, professor da UFRS)
Alguns anos atrás, ao dirigir o filme Bye Bye Brasil o cineasta Cacá Diegues revelou um país que para muitos brasileiros era desconhecido. Neste trecho de um texto escrito para a comemoração dos 25 anos da revista Veja, ele lança o desafio da possível construção de um novo Brasil, no qual há espaço para tolerância e crise.
Eu estava no sertão de Alagoas, em fins de 1972, quando num início de noite, ao voltar de filmagens nos canaviais da região, encontramos a pequena cidade onde estávamos hospedados inundada por etérea luz azul, como num cenário fantástico de modesta ficção cientifica. Conforme nos aproximávamos da praça principal, descobrimos tratar-se de um aparelho de televisão, ainda em preto-e- branco, que o prefeito acabara de mandar instalar para uso publico. Na praça, em torno do trotem, vaqueiros e feirantes, cortadores de cana, pequenos funcionários rurais, homens, mulheres e crianças de todas as idades, com roupas de campo e instrumentos de trabalho, assistiam embevecidos ao show dominical da época.
Acho que foi ali, com aquela experiência, que comecei a me dar conta do que estava para acontecer ao país, esse permanente laboratório de misturas, espaço histórico de convivência entre arcaico e moderno, autoritário e democrático, miséria e luxuria, inferno e céu. O audiovisual em geral mas a televisão de modo muito particular e relevante seriam, nas duas décadas seguintes, os principais protagonistas desse drama cultural que não sai de cartaz.”
Em “Veja 25 anos”, Carlos Diegues em: “O futuro Passou”, pg 51.
Cacá Diegues fala aqui sobre a chegada da TV em um determinado espaço do sertão, no inicio da década de 70, e o que ela caracterizou. No trecho a seguir veremos como era o naquele momento e como ele se modernizou.
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples, pedindo noticias e dando lembranças, escrita, acho que, por outra alheia mão. Escreveu, mandou a carta. Mas a carta gastou oito anos para me chegar; quando eu recebi, eu já estava casado. Carta que se zanzou, para um lado longe e para o outro, nesses sertões, nesses gerais, por tantos bons préstimos, em tantas algibeiras e capangas.”
GUIMARÃES ROSA, JOÃO, 2006,1.ed. – Rio de Janeiro – NOVA FRONTEIRA, pg. 99.
Ficamos em silencio, olhando casas de luzes apagadas, com antenas parabólicas nas cumeeiras dos telhados. Eram bem poucas no planalto extenso, multiplicando-se próximo às cidades. Desejei bater à porta de uma delas, dar boa-noite às pessoas, xeretar programa a que assistiam. Não consigo imaginá-las atravessando a porta para os afazeres nos currais e roçados, depois de se intoxicarem de novelas. Despertados pela luz do farol, de vez em quando voam pássaros à nossa frente, voos rasantes, ligeiros.
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 15,  - Editora Objetiva – 2008.
Não quero me ligar nesse mundinho sertanejo. No começo da viagem, olhei nossas figuras. Três vaqueiros desgarrados, cowboys voltando das planícies lunares. Ajusto a cabeça ao tronco da arvore. Não será um ingazeiro? Não tem a menor importância. As costas começaram a doer e a bunda procura conforto na areia. As poltronas do consultório são bem melhores. O consultório vai bem, só aceito clientes particulares. Os planos de saúde pagam uma miséria. Preciso conferir os boletos dos cartões de credito, antes de pagar as contas. Anoto os gastos na agenda. Controlo as despesas de casa, mantenho uma boa reserva na poupança. Sou investidor temeroso, não corro riscos. Já tomei prejuízo investindo em títulos. Caíram de cotação e perdi o que juntava para a compra de um apartamento novo. Joana não se liga em contas, gasta e gasta. Joana, Marília e Pedro. O celular fora de área, maquina inútil no bolso da calça. Vou deixar na mala, enquanto permanecer na Galiléia. Galiléia. Sofro de narcolepsia. Apago quando estou cansado. A pele queimou demais. Esqueci o protetor solar. Esqueci tudo nesta viagem. Ismael?
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 135,  - Editora Objetiva – 2008.
É muito justo, neste ponto, indagar sobre as origens dessa época de extremo relativismo e poder das imagens. Não se pode, é claro, apontar uma data precisa,exata, mas, com certeza, pode-se afirmar que a marca central dessa época são os meios de comunicação de massa – a onipresença da televisão, do radio e da imprensa escrita. A partir dos anos 60, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação permitiu o crescimento vertiginoso destes meios segundo um processo cada vez mais sofisticado, acelerado com   a disseminação de computadores pessoais cada vez mais potentes e, mais recentemente, com o surgimento das fibras óticas e a multiplicação de possibilidades de interligação entre telefones, televisores e computadores.
Os sertanejos, por sua vez, apesar de estarem antenado a respeito da tecnologia, ficaram parados, estagnados em outros pontos, a exemplo da educação. A impressão que temos é que somente aqueles que tiveram o privilegio de estudar fora é que conseguiram sair do ciclo que os seus pais deixaram, mas a grande maioria  do povo do sertão continua massacrado, marginalizado, mesmo que tenha a modernidade ao seu alcance.
O povo sofrido do Brasil sempre foi vitima da violência: dos colonizadores sobre os índios; dos senhores sobre os escravos; dos fazendeiros sobre os camponeses do passado, os bóias-frias de hoje; dos latifundiários sobre os posseiros, dos patrões sobre os operários; dos poderosos sobre os que lutam pela liberdade, do poder temporal sobre a igreja dos pobres. (...)
Na raiz dessa injustiça está um sistema sócio-econômico intrinsecamente mau, porque baseado na desigualdade, que produz cada vez mais riqueza, poder e arbítrio para uns poucos, e pobreza, submissão e miséria crescentes para a grande maioria. Para manter essa injustiça, cometem-se inúmeras violências, e a maior delas consiste em retirar do povo a possibilidade de participar da vida política, economia e social do país; consiste em dificultar, ou mesmo impedir, a livre organização e associação dos cidadãos para a defesa de seus direitos mais legítimos, deixando a brutalidade frequente impune.”
Hélio Bicudo em Violência: o Brasil cruel e sem maquiagem, Revista Veja, 2000.
São muitos os problemas do Brasil são conhecidos de todos nós, não há como dizer que existam inocentes, pois as mídias nos informam a respeito de tudo que acontece, mas quando falamos de nordeste e, consequentemente, dos sertanejos, o que aparenta é uma espécie de letargia, passando a impressão que está tudo bem em relação ao povo do sertão. O sertão de Graciliano e de Rosa e de Mello Neto, continua praticamente igual, com algumas ressalvas, ao que eles descreveram alguns anos atrás, mais precisamente nas décadas de 30 e 50.
 “ Ismael assume o volante. Escureceu completamente. As folhagens iluminadas pelos faróis lembram um campo nevado. Não acho graça na comparação. As chances de chegarmos antes das nove horas são remotas, por conta da estrada ruim. Os jornais da televisão mostram o abandono todos os dias. Podemos ser assaltados na próxima curva, por bandidos armados de rifles, em camionetes importadas como a nossa. Substituíram as pastagens de gado dos sertões por plantios de maconha.”
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 9,  - Editora Objetiva – 2008.
Prossigo entre campos de futebol de areia, margens comuns em estradas do Brasil. Rapazes se atracam em cima de uma bola, índios de tacape arrasando o inimigo. Cidades pobres, iguais em tudo: nas igrejas, nas praças, num boteco aberto às moscas. No posto de rodoviário, um guarda federal espera a oportunidade de arrancar dinheiro de um motorista infrator. Mulher em motocicleta carrega uma velha na garupa e tange três vacas magras. Dois mitos se desfazem diante de meus olhos, num só instante: vaqueiro macho, encourado, e o cavalo das historias de heróis, quando se puxavam bois pelo rabo.
Imagino a casa dos meus avós derrubada por tratores, dando lugar a uma rodovia. O barulho forte das máquinas e as luzes dos faróis me deixam a impressão de que estou noutro planeta. Mas não estou. O sertão continua na minha frente, nos lados, atrás de mim. O asfalto fede. Já chorei por causa dessa ferida preta, cortando as terras. Agora, me distraio com os carros que passam.”
CORREIA DE BRITO, RONALDO , pg 8,  - Editora Objetiva – 2008.
Os quantos homens, de estranhoso aspecto, que agitavam manejos para voltarmos de donde estávamos. Por certo não sabiam quem a gente era, e pensavam que três cavaleiros menos valessem. Mas, entendendo que do caminho não desgarrávamos, começaram a ficar estramontados. Um eu vi, que dava ordens: um roceiro brabo, arrastando as calças e as esporas. Mas os outros, chusmote deles, eram só molambos de miséria, quase que não possuíam o respeito de roupas de vestir. Um, aos menos trapos: nem bem só o esporte de uma tanga esfarrapada, e, em lugar de camisa, a ver a espécie de colete, de couro de jaguacacaca. Eram uns dez a quinze. Não consegui sentido no que eles ameaçavam, e vi que estavam aperrando as armas. Queriam cobrar portagem? Andavam arrumando alguma jerimbamba? Não convinha avançar assim por cima deles, logo, mas também dar recuada podia ser uma vergonha. Esbarramos, neles quase encostados. Íamos esperar o resto do pessoal. E eles, ali confrontes, não explicavam razão nenhuma. Só um disse: - Pode não... Pode não...”
GUIMARÃES ROSA, JOÃO, 2006,1.ed. – Rio de Janeiro – NOVA FRONTEIRA, pg. 383.
Hoje, acrescentaram-se outros problemas da modernidade a aqueles já existentes, os problemas que já estão descritos acima e aqueles que não serão possíveis destacar neste espaço. Estes problemas são exemplo de desajustes pelo qual vem passando o nosso país a muitos anos e principalmente o nordeste brasileiro. Um ciclo que, apesar dos progressos econômicos dos últimos tempos, ainda está longe de se encerrar por completo, deixando uma lacuna nas regiões profundas do sertão nordestino.
É fato que acontecimentos como o maio de 68 que aconteceu na França e a queda do muro de Berlim em 1989, caracterizaram alguns dos principais acontecimentos do final do século XX e que implicaram na mudança de comportamento e no pensamento do século XXI.
Embora os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade terem sido deliberadamente propagado por todo o mundo, percebemos, através das leituras dos autores contemporâneos, os quais tem o Brasil como tema e mais precisamente a região do sertão, observamos que o sertão continua a espera de mudanças concretas em relação a diversos fatores.
Entretanto, é nítida a percepção de mudanças em relação a diminuição do numero de miseráveis e em contra partida, a proliferação de instrumentos relacionados a modernidade, a exemplo de antenas parabólicas e Internet, mas o que se percebe em leitura das obras analisadas é que o sertão mesmo que tenha progredido em alguns setores, continua estagnado em outras áreas que merecem a nossa atenção. A vida do sertanejo praticamente congelou no tempo e no espaço, ou seja, muitas     ideias, costumes e situações observadas na leitura de Grande Sertão: Veredas, de Rosa, continuam enraizada no modo de vida do sertão, e, consequentemente, do sertanejo, passando a nítida sensação de que, mudaram as estações e os tempos, mas que quase nada ali mudou.

Marcelio Oliveira é Jornalista e Escritor

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